Fonoaudiólogos e fisioterapeutas apostam em técnica que estimula eletricamente o cérebro para acelerar a recuperação de pacientes

Imagine poder “reprogramar” as conexões cerebrais para ajudar o corpo a se recuperar mais rápido de uma lesão. É basicamente essa a proposta da neuromodulação, técnica que vem ganhando espaço nos consultórios de fonoaudiologia e fisioterapia como estratégia complementar de reabilitação.

Para entender como ela funciona, é preciso lembrar que o cérebro opera a partir de um delicado equilíbrio entre sinais elétricos e químicos. “Esse equilíbrio pode ser rompido por diferentes fatores: lesões causadas por AVC, doença de Parkinson, quadros demenciais, traumatismos cranioencefálicos, ou ainda alterações no próprio desenvolvimento neurológico, como acontece no autismo e no déficit de atenção”, pontua o fisioterapeuta. “As consequências desse desequilíbrio costumam aparecer nas funções cognitivas, motoras e sensoriais do paciente”, acrescenta.

É justamente nesse ponto que a neuromodulação não invasiva entra em cena. Combinada às terapias de reabilitação já realizadas por fonoaudiólogos e fisioterapeutas, ela funciona como um acelerador do processo terapêutico. “Na prática clínica, notamos que os pacientes apresentam sinais de melhora em um período de tempo mais curto quando a técnica é associada ao tratamento convencional”, conta a fonoaudióloga.

Duas abordagens se destacam nesse campo: a tDCS (Estimulação Elétrica por Corrente Contínua) e a TMS (Estimulação Magnética Transcraniana). Ambas utilizam equipamentos que geram um campo — elétrico, no primeiro caso, e eletromagnético, no segundo — capaz de atravessar o crânio e atingir regiões específicas do córtex cerebral, previamente mapeadas conforme o quadro de cada paciente.

O raciocínio por trás da técnica segue duas lógicas possíveis: em alguns casos, o objetivo é estimular a atividade neural exatamente na área comprometida pela lesão; em outros, a estratégia é inibir a atividade do hemisfério saudável, para forçar uma espécie de reequilíbrio funcional. Qual caminho seguir é decidido caso a caso, sempre com base numa avaliação clínica minuciosa e nas metas terapêuticas traçadas para cada paciente.

As indicações clínicas para o uso da neuromodulação não invasiva são bastante amplas. Ela tem sido aplicada em doenças neurológicas, como Parkinson e epilepsia; distúrbios do movimento, entre eles distonias, tiques, gagueira e zumbido; processos gerais de reabilitação; dores crônicas, como as causadas pela fibromialgia; sequelas de AVC, como afasias e ataxias; e também em casos de disfagia.

“Estamos diante de uma ferramenta que amplia de forma significativa as possibilidades de tratamento em reabilitação. Os protocolos vêm sendo cada vez mais refinados para cada tipo de patologia, e os estudos já comprovam resultados consistentes e duradouros”, resumem os profissionais.