A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1 bilhão de jovens no mundo correm o risco de perder a audição devido a práticas inseguras de escuta, principalmente pelo uso inadequado de smartphones e fones de ouvido.

Se você olhar ao redor no transporte público, na academia ou nos escritórios, a cena se repete: quase todas as pessoas estão usando fones de ouvido. Eles isolam o barulho do mundo, ajudam na concentração e ditam o ritmo da rotina. Porém, o que parece um hábito inofensivo e moderno está disparando um alerta nos consultórios de saúde: a perda auditiva está chegando cada vez mais cedo para jovens e adultos.

Ao contrário de uma explosão ou de um show de rock, que causam um trauma acústico imediato, o dano provocado pelos fones é silencioso. Especialistas explicam que a exposição prolongada a volumes elevados funciona como um “veneno homeopático”. No ouvido interno, existem milhares de células ciliadas, responsáveis por captar as ondas sonoras e transformá-las em impulsos elétricos que o cérebro interpreta como som. Quando submetidas a volumes extremos por muito tempo, essas células sofrem um processo de estafa mecânica e morrem. E elas não se regeneram: uma vez destruídas, a perda auditiva é definitiva e cumulativa.

Os primeiros sinais de alerta

Segundo a fonoaudióloga Stéfany Barbosa, o ouvido costuma avisar antes de a perda se instalar. “Antes de percebermos a possibilidade de uma perda auditiva, o ouvido pode nos dar alguns sinais de que algo está fora da ‘normalidade’. Assim como qualquer outra área do nosso corpo, ele também manifesta sinais quando está sendo sobrecarregado”, explica.

Entre os principais sinais, ela destaca o zumbido, a sensação de pressão e o ouvido abafado após o uso dos fones, principalmente em volume alto. Outro alerta é a dificuldade para compreender o que as pessoas dizem durante uma conversa, sobretudo em ambientes barulhentos. “A compreensão da fala pode ficar ainda mais difícil, sendo um sinal de alerta ainda maior para a saúde auditiva”, ressalta.

Muita gente sente um zumbido logo após tirar os fones e acha que isso faz parte. A especialista esclarece que não é bem assim. “O zumbido é a percepção de um som que, naquele momento, não está vindo de nenhuma fonte sonora externa”, define. Quando surge depois do uso dos fones, principalmente em volumes muito altos e por tempo prolongado, pode indicar exposição excessiva. “Nosso ouvido possui células muito sensíveis e, quando elas são expostas repetidamente a sons muito intensos, podem sofrer alterações”, alerta.

A cilada dos decibéis e a regra de ouro

O ouvido humano tolera bem sons de até 85 decibéis (dB) por até 8 horas diárias, o que equivale à intensidade média do trânsito de uma grande avenida. O perigo começa porque os smartphones modernos atingem facilmente entre 100 e 115 dB em potência máxima. Nessa altura, apenas 15 minutos de uso diário já são suficientes para causar lesões irreversíveis.

Como o cérebro se acostuma rapidamente com o barulho, a tendência é aumentar o volume aos poucos para manter a mesma sensação de imersão. Para quebrar esse ciclo, a comunidade médica recomenda a Regra dos 60/60: nunca ultrapassar 60% da capacidade máxima do aparelho e não usar os fones por mais de 60 minutos contínuos, com uma pausa de 10 a 15 minutos para descanso auditivo antes do próximo play.

O modelo do fone também influencia a saúde auditiva. Os intra-auriculares, que entram no canal auditivo, são os mais perigosos, pois jogam o som diretamente contra o tímpano e não deixam o ar circular. Já os fones over-ear, as famosas “conchas”, são mais anatômicos e distribuem melhor o som.

A fonoaudióloga reforça essa orientação. “O ideal é manter o volume confortável, fazer pausas durante o uso e, quando possível, optar por headphones (abafadores) que reduzam os ruídos externos, evitando a necessidade de aumentar o volume em ambientes barulhentos”, recomenda.

Prevenção e acompanhamento

Para quem usa fones todos os dias, o principal exame preventivo é a audiometria. “É um exame que avalia a capacidade de ouvir diferentes frequências e intensidades, e assim identificar possíveis alterações auditivas”, explica Stéfany. Além do exame, é preciso ficar atento aos sinais do próprio corpo. “Caso o zumbido, o ouvido abafado ou a dificuldade para compreender a fala sejam frequentes, é importante procurar um fonoaudiólogo ou otorrinolaringologista”, conclui.