A ausência de um elemento dentário desencadeia modificações anatômicas silenciosas na boca que podem comprometer desde a digestão até a musculatura facial.

Para muitas pessoas, a perda de um dente, especialmente quando ocorre na região posterior da boca, longe da linha do sorriso, é encarada como um problema menor. O raciocínio clínico e biológico, no entanto, mostra que a arcada dentária funciona como um arco de pedras engenhosamente equilibrado: a remoção de uma única peça altera as forças de sustentação de toda a estrutura.

O efeito dominó na arcada

Os dentes exercem uma pressão contínua uns contra os outros, mantendo-se firmes em suas posições corretas. Quando um espaço vazio é gerado, essa estabilidade é desfeita. Sem o apoio lateral, os dentes vizinhos tendem a inclinar-se progressivamente em direção ao vão livre.

O dente posicionado no arco oposto (superior ou inferior) perde o seu ponto de contato mecânico e começa a se projetar para fora da gengiva, buscando o apoio que deixou de existir. Esse movimento desajusta toda a oclusão (a mordida), altera os pontos de mastigação e cria áreas de difícil higienização, o que propicia o acúmulo de resíduos e o surgimento de cáries nos dentes remanescentes.

Reabsorção óssea

Como o organismo opera sob o princípio da eficiência, o osso que perdeu sua função passa por um processo biológico chamado reabsorção: com o tempo, diminui em volume e espessura.

O Doutor em Implantodontia e mestre em Ortodontia, o especialista Pablo Santos explica o efeito na prática: “sem a raiz do dente, o osso da região vai sendo reabsorvido (perdido) com o tempo. É por isso que muitas dentaduras ficam frouxas com os anos e o rosto ganha aquele aspecto ‘murcho’”.

Reflexos na articulação e dores

A sobrecarga assimétrica afeta diretamente as Articulações Temporomandibulares (ATMs), estruturas responsáveis por ligar a mandíbula ao crânio.

O profissional detalha o mecanismo: “Os dentes funcionam como ‘calços’ que mantêm a altura correta entre a maxila (o osso de cima, onde ficam os dentes superiores) e a mandíbula (o osso de baixo, onde ficam os dentes inferiores). Quando eles faltam, principalmente os de trás, a mordida ‘afunda’: a mandíbula passa a fechar mais do que deveria, os músculos da face trabalham encurtados e a articulação sai da posição ideal.”

O trabalho muscular desequilibrado pode tensionar a região da face e do pescoço, resultando em estalidos ao abrir a boca, desgaste excessivo nos dentes saudáveis e, em alguns casos, cefaleias de origem tensional, que muitas vezes o paciente custa a associar à saúde bucal. “A dor na ATM pode ter várias causas, como bruxismo e estresse. Mas, quando ela está ligada à perda de dentes e a uma mordida desequilibrada, uma reabilitação bem planejada faz uma diferença enorme”, orienta.

Prótese removível x implante

Hoje, a ciência oferece diferentes caminhos para reabilitar o paciente.

A prótese removível apoia na gengiva, devolve a aparência, mas pode se movimentar, machucar, dificultar a fala e reduz bastante a força da mastigação.

O implante é a ‘raiz’ de titânio que fica no osso, e sobre ele é colocado o dente. Já que ele substitui não apenas a coroa, mas também a raiz do dente, por estar fixo no osso, devolve firmeza, conforto e uma mastigação muito próxima da natural, sem interferir nos dentes vizinhos.

“Na reabilitação com implantes devolvemos a altura correta da mordida e um apoio firme dos dois lados. Com isso, a mastigação volta a ser distribuída, a musculatura trabalha de forma equilibrada e a articulação fica mais protegida. O rosto recupera o suporte e a expressão fica mais jovem”, destaca Dr. Pablo.

A escolha da melhor técnica varia de acordo com as condições de saúde geral e a estrutura óssea de cada indivíduo, cabendo ao profissional mapear as necessidades biológicas do caso.

 “Hoje, a grande maioria das pessoas que perderam dentes pode fazer implante. Quem define isso é uma avaliação clínica completa, com exames de imagem”, salienta.

Cuidados com implante

Antes: deve ser feita uma avaliação completa, com tomografia, histórico de saúde bucal e medicamentos que utiliza. Diabetes descompensado, tabagismo e alguns remédios para osteoporose, por exemplo, exigem atenção especial.

Durante a recuperação: siga as orientações à risca. Tome a medicação prescrita, faça repouso nos primeiros dias, mantenha a alimentação recomendada e evite cigarro e álcool. O paciente também deve comparecer a todos os retornos para o acompanhamento do resultado do procedimento.

Depois e para a vida toda: a cada seis meses ou, no mínimo, uma vez por ano, além da escovação e uso do fio dental, é indispensável a volta ao dentista para revisões periódicas.

Com planejamento correto e esses cuidados, o implante é “um tratamento seguro e duradouro, que devolve muito mais do que o sorriso: devolve a segurança para comer, falar e sorrir sem medo”, conclui.