Internet causou grande impacto na circulação de notícias. O mercado, contudo, segue interessado em disseminar suas ideias: basta observar formações oferecidas por parcerias entre mídia empresarial e corporações de saúde. Qual o lugar do SUS nessa engrenagem?
Assim como não só de curiosidade se faz um cientista, gostar de escrever nunca foi regra única para se fazer jornalismo. Quando se pensa, então, em jornalismo e saúde, é necessário ainda mais: construção de pautas que articulem evidências científicas com a realidade dos territórios e que debatam redes de cuidado, economia setorial, inovação e tecnologia diretamente ligadas aos cenários epidemiológicos e serviços de saúde; conhecimento do timing e dos sentidos do que é e do que não é notícia; capacidade de trânsito entre diversos mundos e, principalmente, formação crítica e sólida para se ler um mundo cada vez mais povoado por vieses e disputado por interesses.
Essa disputa, que antes se dava no cotidiano do início da vida profissional, agora acontece no plano da formação: é cada vez maior a presença da saúde em treinamentos e cursos de jornalismo. Contudo, não estamos falando das grades curriculares das faculdades de comunicação, mas sim das formações dentro de empresas jornalísticas, com as oferecidas pelos jornais Folha de S.Paulo , O Estado de S. Paulo , pela startup Galápagos e novos arranjos comunicacionais.
O bom jornalismo ensina que se deve desconfiar até das boas notícias. Se a ampliação do tema da saúde nos espaços privados de formação é um movimento aparentemente positivo, cabe questionar quais interesses fazem a saúde ganhar esse tanto de espaço.
Responder essa questão com a profundidade necessária exige passos atrás. Dentro da complexa arquitetura de formatos, processos e conhecimentos erigida pelo universo da comunicação, o jornalismo é uma das construções mais antigas, cotidianas e complexas. Tipógrafos e rotativas possibilitaram a difusão de uma mesma informação para muitas pessoas. Informação é dinheiro. Não à toa, os primeiros jornais surgiram no século XVII para noticiar as rotas comerciais entre a Europa e suas possessões na Ásia e na América e as variações de câmbio decorrentes dessas trocas coloniais.
Informação é política. Mais e mais tipógrafos, rotativas e bobinas de papel possibilitaram o surgimento das gazetas políticas na Europa do século XIX. Perspectivas mundialistas impulsionaram as revistas, os almanaques e a instauração dos grandes veículos nacionais no início do século XX. O desenvolvimento tecnológico da radiodifusão entre 1920 e 1950 trouxe a essa equação as emissoras de rádio e televisão.
Junto à disseminação dessas tecnologias, a capacidade normativa do jornalismo comercial impôs-se como padrão e tornou-se hegemônica: uma produção de conhecimento alicerçada em técnicas discursivas que, a partir de contextos espaciais, históricos, sociais, econômicos e políticos, objetivam e recortam a realidade por critérios de ineditismo, impessoalidade, oposição, objetividade e singularidade, constituindo, assim a forma/valor notícia.
O jornalismo na era das redes
Com a crise representacional do pensamento moderno, amplificada pela consolidação da rede mundial de computadores – a internet –, juntamente com novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), fez-se a sociedade em rede, expressão cunhada pelo intelectual espanhol Manuel Castells. No seu esteio, profundas mudanças de paradigma em todos os modos de se produzir e viver, especialmente no campo da comunicação.
Segundo Castells, mais do que um mundo conectado, a internet e as TIC e possibilitaram o autotrabalho, ou seja, um mesmo profissional cuidar de todo o processo produtivo com bases tecnológicas e informacionais. Se ficarmos apenas no âmbito do jornalismo, o mesmo trabalhador checa, entrevista, grava, decupa, edita, monta o link e faz a transmissão. A mesma lógica envolve programadores, editores, cineastas, pesquisadores, professores, artistas e toda e qualquer atividade que pode ser realizada unicamente no ambiente digital, em maior ou menor grau.
No âmbito do jornalismo, o autotrabalho deslocou a ideia de notícia para a noção de conteúdo. Sem a limitação do espaço físico do jornal, sem a necessidade de toda uma infraestrutura para a produção e transmissão audiovisual e somado o aumento exponencial de indivíduos com acesso barateado aos meios de produção digital, todo e qualquer assunto passou a ser discutido e produzido das mais variadas formas e por toda e qualquer pessoa com as mais diversas formações, interesses e interseções. A emergência das mídias sociais catapultou e estreitou ao mesmo tempo as estradas digitais, tornando o blogueiro dos primeiros tempos da internet no agora influenciador digital.
Os resultados dessas novas formas são sensíveis no mercado de trabalho. Dados do Dieese, elaborados a partir da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e divulgados pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), mostram que o número de trabalhadores formais em funções do jornalismo no segmento de jornais e revistas caiu de 9.870, em 2015, para 4.709 em 2025 – retração de 52,3%. A perda foi de 5.161 postos de trabalho em dez anos – os números não incluem os cenários das redações de rádio, TV e da própria internet.
Quem financia o jornalismo de saúde
No atual ecossistema midiático, o jornalismo comercial e hegemônico precisou ganhar novas dimensões e referenciais para enfrentar a concorrência com uma variada gama de especialistas e leigos que não compõem e/ou recusam o discurso e a prática jornalística. A mesmo tempo, tais empresas precisam também se mostrarem conectadas e em conformidade ao mundo em transformação.
Para isso, os laboratórios de formação e treinamento in company têm sido reformulados. As grandes empresas de comunicação começaram a investir na capacitação de mão de obra para suas próprias redações a partir da década de 1980, em meio aos movimentos de desregulamentação da profissão de jornalista. No Brasil, são exemplos o Curso Abril de Jornalismo, criado em 1984; o Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha de S. Paulo, de 1988; e o Curso Estadão de Jornalismo, de O Estado de S. Paulo, de 1990.
A força do mundo digital e o enxugamento das redações forçaram mudanças a esse modelo de capacitação. O treinamento generalista foi abrindo espaço para uma formação de nicho hiperespecializada, A valorização do setor saúde serviu como uma luva: atende à crescente demanda por coberturas complexas e – acima de tudo – possibilita uma maior proximidade dos agentes econômicos do setor, garantindo a viabilidade financeira dos programas de formação por meio de patrocínios e apoios de institutos privadas de ensino e pesquisa, hospitais, empresas farmacêuticas e fundações filantrópicas.
Eis a velha fórmula do capitalismo ganha-ganha. Para as empresas jornalísticas, os patrocinadores são uma fonte de renda e, com os programas, mais uma forma de mantê-los como anunciantes próximos, além de apresentá-los como um ativo publicitário de seus projetos.
Já para as empresas do setor saúde, os cursos possibilitam outras formas de modular seus discursos para o mercado jornalístico, ganhar credibilidade com futuros profissionais e se mostrarem socialmente responsáveis.
Não à toa o curso da Folha destaca na sua divulgação oferecer “uma imersão focada em políticas públicas, medicina e bem-estar” com o apoio e patrocínio do Instituto Serrapilheira, do Hospital Israelita Albert Einstein e de laboratórios de medicina diagnóstica. Já o Curso Jornalismo de Bem-Estar e Saúde do Estadão, voltado para abastecer uma nova plataforma da empresa focada em qualidade de vida, saúde e ciência, tem o patrocínio da Afya, marca da fusão entre a NRE Educacional, maior grupo privado de faculdades de Medicina do país, com a Medcel, empresa de cursos preparatórios para provas de residência médica, e Rede Américas, a gigante joint venture criada pela união de 50% dos laboratórios Dasa e 50% do grupo Amil.
O modelo de formações em jornalismo, contudo, já ultrapassa as grandes redações. A Jornada Galápagos de Jornalismo de Saúde foi criada em 2024 pela startup de mídia Galápagos Newsmaking — empresa fundada pela jornalista Alecsandra Zapparoli, ex-publisher da Editora Abril. A iniciativa já se encontra na sua terceira edição e conta com a Bayer Brasil e a CNN Brasil entre patrocinadores e apoiadores.
Empresas ligadas à perspectiva do jornalismo independente e investigativo, como a Agência Pública, e associações da sociedade civil, como a ACT Promoção da Saúde, também têm feito ações de treinamento, formação e mobilização em comunicação, saúde e/ou direitos humanos. Formatos à parte, as parcerias como grandes investidores se mantêm, como no caso da Pública, cujo novo programa lançado neste ano têm patrocínio da Fundação Itaú e da ONG gringa Imaginable Futures.
Fundamental também destacar que as formações são importantes para os profissionais que as cursam. Em boa parte, são jovens recém-formados (habilitados em jornalismo ou não) que têm nesses programas a porta de ingresso numa carreira cada vez mais disputada e rarefeita. Os cursos e treinamentos abrem possibilidades de se conhecer por dentro os processos produtivos do jornalismo comercial, vivenciar o cotidiano das redações, estabelecer redes de contatos e relacionamentos e, em muitos casos, serem aproveitados pelo quadro das empresas, seja por produção (o precário freela), seja por vínculo trabalhista.
Digo e afirmo pois pude vivenciar todos os passos acima listados em 2006, quando fui selecionado para a 17ª edição do curso de Jornalismo do Estadão. Aos 26 anos, ter feito parte daquela formação respondeu a anseios profissionais e pessoais e possibilitou a inserção de um jovem do subúrbio carioca no mercado de jornalismo em São Paulo, com todas as alegrias, frustrações, conquistas e os perrengues decorrentes desse movimento.
Qual o lugar do SUS nessa engrenagem?
Assim como Heráclito e o rio não são os mesmos após a travessia, nem eu, nem o jornalismo e nem o Brasil são mais os mesmos passados 20 anos. Contudo, o que não mudou foi o posicionamento ideológico dos agentes econômicos frente ao direito à saúde e à plena potência do maior sistema público de saúde do mundo, o SUS.
Em que pese todo o reconhecimento internacional da capilaridade do sistema e sua ampla inserção na vida do povo brasileiro, das práticas do cuidado à vigilância em saúde; sua capacidade de inovação e oferta de serviços, e toda a produção de conhecimento, insumos e produtos de alto valor econômico agregado engendrada pelo e a partir do SUS, a lógica normativa do jornalismo segue dando maior visibilidade às falhas, às limitações e às corrupções – na maioria das vezes apoiadas em fontes e percepções superficiais e limitadas, que não relacionam as carências apontadas às questões estruturais dos modelos econômicos, políticos, trabalhistas e sociais vigentes e à lógica neoliberal e privatizante, que valoriza e disputa sentidos com o SUS, reafirmando a saúde como mercadoria.
Como aponta Izamara Bastos Machado, pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz) em sua tese de doutorado, há um SUS midiático que circula nas páginas, sites e transmissões das empresas jornalísticas que reflete o modo como a sociedade se relaciona com as questões que envolvem a saúde do país. Muitas vezes, quando a notícia tem viés positivo, o que aparece não é o SUS, mas sim a instituição hospital, um indivíduo – comumente profissional da medicina, uma parceria público-privada. Quando o viés é negativo, o sistema costuma ser nomeado com suas três letras, evidenciado seus gargalos e a tibieza da gestão pública.
O jornalismo crítico que fazemos aqui no Outra Saúde não nos autoriza a trilhar os caminhos fáceis do maniqueísmo e de julgamentos ex ante. Contudo, são sabidos os interesses que movem os agentes econômicos e como muitos deles atuam, se comportam e posicionam, sejam por meio de suas associações ou de maneira individual. A ligação das pautas de saúde com as editorias de “Bem-estar” já denota a força mercadológica que costuma orientar tais abordagens. Será que tais cursos orientados e patrocinados por esses agentes têm o SUS nas suas agendas? Quem são as pessoas convidadas para debater o sistema público de saúde? Quais são os recortes e a vozes autorizadas e estimuladas nessas formações a falar sobre o “outro lado” da notícia quando o que está em jogo é o aprofundamento insidioso das relações público-privado no cotidiano das unidades de saúde e na definição das políticas e normativas?
Para nós, do campo do jornalismo analítico e crítico e da Comunicação Pública, não há o “outro lado” que não seja estar ao lado do SUS. Suas limitações e gargalos não são entendidos como um problema inerente ao caráter universal e público, mas sim como processos de disputas de conjunto de forças que justamente enfraquece as bases de um projeto coletivo, formado pela expressão do desejo e da luta política e popular dos movimentos sociais e sanitário.
Nossa perspectiva e diálogo junto aos trabalhadoras e trabalhadores das mais diversas unidades e gestões, a pesquisadores e ativistas nos dá a certeza de que a sociedade brasileira ganha muito mais com um jornalismo de saúde que se oriente pelo SUS, seus princípios e desafios.


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